Entrevista: Leo Dressel conta sobre suas inspirações, objetivos como artista e mais

Na semana passada eu bati um papo super legal com o cantor catarinense Leo Dressel em sua passagem por São Paulo para divulgar o trabalho do EP “Relax, Leo“.

Com apenas 24 anos, Leo começou sua carreira como guitarrista e até agora já lançou dois EPs, foi morar em Los Angeles, nos Estados Unidos, para estudar sobre música e buscar inspirações para suas canções e atualmente está produzindo seu primeiro álbum.

Leo, conta pra mim o início do seu trabalho com a música: Eu comecei só como guitarrista, meu pai me levou para fazer aula de guitarra porque eu estava interessado e no primeiro dia de aula o professor achou que eu tinha talento, ou habilidade, ou algo que era promissor, sei lá. Em 2004, o primeiro ano que fiz aula de guitarra, um guitarrista chamado Edu Ardanuy – meu ídolo na época -, foi fazer um workshop na minha cidade para 300 pessoas em um evento que meu professor estava promovendo na escola dele e ele me disse de surpresa que eu iria tocar uma música com ele aquele dia, e até então eu nunca tinha tocado ao vivo para ninguém. No ano seguinte eu já estava em São Paulo tocando na feira Expo Music e de lá apareceram cada vez mais eventos. Só em 2011 que eu fui começar a cantar de fato e em 2012 eu lancei meu primeiro EP cantando.

Como você decidiu que você queria fazer um trabalho autoral cantando e tocando? Eu estava muito na vibe do John Mayer, eu o descobri em 2008. Eu sempre fui de ouvir muito de tudo, de 2005 a 2011 eu só tocava música instrumental, mas eu ouvia de tudo. Eu ouvia Charlie Brown, rap, hip hop, mas John Mayer foi chegando e ficando cada vez mais. Eu achava o trabalho dele muito foda, ele tocava guitarra e eu não estava pronto para largar mão da guitarra, eu ainda era guitarrista, virou parte da minha personalidade, e ele canta e toca guitarra, então isso começou a entrar como uma possibilidade de vida. E foi por causa dele que eu comecei a cantar basicamente.

Você já citou Edu Ardanuy e John Mayer, mas quem mais são seus ídolos na música? Eu tenho alguns ídolos que são desde pequeno, alguns que vieram no meio e alguns que são hoje. Existe alguns guitarristas que eu sempre vou respeitar eles e me inspiram mesmo hoje que minha música não é centrada na guitarra, Steve Vai e Joe Satriani – são dois guitarristas que eu sou grande fã, e Guns N’ Roses e Bob Seger, duas misturas absurdas. Depois, na fase da adolescência mas que continuam até hoje, tem a banda britânica Simply Red, Limp Bizkit e Linkin Park que são duas bandas pesadas que misturam rap com heavy metal… E John Mayer, mas eu não ouço mais. Eu parei de ouvir ele no ano passado, se não me engano. Eu sempre gostei muito de hip hop, na verdade eu sempre ouvi rap, hip hop e R&B mais do que qualquer outra coisa, então hoje em dia eu ouço muito D’Angelo, Hiatus Kaiyote que é uma banda da Austrália que mistura soul, R&B, jazz e hip hop, bem complexo. Anderson Paak, que foi indicado ao Grammy agora como artista revelação, e na parte mais filosofal do que falar e como se portar como artista é Kendrick Lamar – eu acho que ele fala de coisas que são totalmente fora do meu mundo; racismo e pobreza foram duas coisas que eu não experienciei na minha vida, mas a maneira como ele lida, fala sobre isso e empurra os limites não ligando em fazer músicas comerciais, é incrível. Eu estou vidrado no novo álbum dele “To Pimp a Butterfly”. Mas tem coisas do Drake que eu gosto muito, coisas da Rihanna, do Tame Impala. Eu basicamente ouço hip hop, R&B e soul.

Qual foi o processo de gravação e composição do EP? “Eu queria cantar em inglês e queria morar fora, então eu fui para Los Angeles, morei lá por 6 meses e voltei. Eu fui achando que eu era um musico melhor do que eu era, eu fui muito confiante. Eu pensei: ‘Nossa, com esse trabalho que eu tenho eu vou levar meu EP, eu vou entrar em uma gravadora e é isso ai, vai rolar, eu não volto mais pro Brasil’, mas quando eu cheguei lá eu encontrei uma galera fazendo a mesma coisa que eu, uns bons e uns ruins, mas nem de longe eu era o melhor. Então eu percebi que eu ia precisar trabalhar, ia precisar correr atrás porque a vida não é assim, a história da pessoa que sai da cidade pequena e vai para Los Angeles e explode. No avião de volta ao Brasil eu já estava pensando nas músicas novas, como as músicas deveriam ser. Eu cheguei no Brasil e já comecei a escrever. Todas as músicas nasceram no violão, as ideias vinham e eu anotava todas elas. Comparado a maneira com que eu estou gravando hoje, é uma série de degraus que vão sendo conquistador… Eu não tinha os softwares para gravar e montar minhas músicas que nem os profissionais usam, era tudo minha imaginação e lembrança, se eu esquecesse algo não tinha mais música. Eu usava folhas de sulfite com o desenho de uma linha do tempo e fazia uma escala de onde entrava o refrão, vozes extras, instrumentos e etc. São 5 músicas no EP, eu cheguei no estúdio com 5 folhas de sulfite com anotações das músicas que eu queria. Eu tinha 3 dias para gravar o disco e três dias para você gravar, mixar e masterizar é muito pouco, para cinco músicas. Foram 10 horas por dia trabalhando. Foi uma correria toda.

E as composições que estão no disco, foram inspiradas em que? “Eu gosto de fazer disco conceitual. Eu sempre quis fazer um mas ainda não tinha me desenvolvido o suficiente para fazer isso. Todo o processo criativo às vezes fica meio encavalado, mas quando veio o nome “Relax, Leo” foi muito rápido para escrever e aí o CD deslanchou. A primeira música é “Goin’ Home”, ela tem um ritmo gostoso e tem uma harmonia de esperança, ensolarada. É uma letra sobre ir pra casa e aceitar quem eu realmente sou. Eu vim de uma família com nenhum músico e de uma cidade conservadora, então enquanto eu fazia música eu sempre precisei ter um plano B. Eu nunca decidi que eu faria só música. Então “Goin’ Home” fala disso, de ‘sair do armário’ neste sentido, de seguir o que eu queria fazer. “The D Beat” fala sobre Los Angeles, a experiência que eu tive, o aeroporto de LAX e aqueles anos de 2013 e 2014. “What It Is” fala sobre um tipo de mulher que eu conheci nesta época, um tipo não desejável, é como se fosse uma crítica à mulheres vazias. “Change My Mind” é sobre mudar de ideia sobre carreira e morar fora. “Keep From Falling” é sobre um relacionamento negativo. Esse foi o conceito.

As I’m going home I’m trying to write this song and I’m telling myself it’s gonna be a bad one. Trouble sleeping in the past few days, now what am I gonna say? It’s all part of my plan.

Porque o título “Relax, Leo”? Essas questões que eu tinha de ‘vou ser músico ou vou ter essa vida dividida de nunca conseguir colocar 100% de energia em alguma coisa?’, ‘vou morar no Brasil ou não?’ e ‘vou fazer isso ou aquilo?’ foram várias ramificações e decisões e um dia eu contei isso pra uma pessoa, eu descarreguei vários problemas e essa pessoa me falou: ‘Relaxa, Leo’ e dai eu disse ‘Ah, esse é o nome’.

E qual o significado da arte da capa?A capa é uma foto do mar e esse mar fica em uma praia onde minha avó tem casa e eu sempre passei os verões lá desde pequeno. E no final de 2014, alguns meses antes de eu gravar o disco, eu quis ter aquele momento de me retirar e organizar as ideias e finalizar as músicas e eu fui pra essa praia. Eu cheguei lá sem dormir, virado a noite e assisti ao nascer do sol, tirei várias fotos desse momento e depois eu coloquei um triângulo em cima. Eu acredito que o triângulo é a máxima redução da existência humana possível. O corpo, a mente e a alma. Não da pra reduzir mais do que isso na minha opinião, e o triângulo representa isso.

Como você vê o cenário musical popular atual?Tem tanto espaço pra tanta gente hoje, o que não da é fazer coisa parecida com o que já foi feito e ficar fazendo melhorias marginais na música, tem que fazer melhorias essenciais, mudar e fazer coisas diferentes que só aquele artista pode fazer. Pra mim, hoje, o cenário popular é o que as rádios escolhem tocar. Mas tem músicas populares que são boas na minha opinião, são bem feitas e bem gravadas. A Rihanna vem ‘zuando’ muito nos vocais dela, em “Work” parece que ela cantou sentada no sofá bebendo champanhe, esse é o tipo de música pop que parece que não estão mais se importando com a qualidade e entregam qualquer coisa. Mas tem músicas que estão bem gravadas e bem compostas, o Tiago Iorc com “Eu Amei Te Ver” é um exemplo, é uma música que é difícil no cenário de hoje você imaginar que iria estourar, porque é um violão, um baixo, uma bateria, são músicas gravadas de fato por seres humanos em um estúdio, sem nenhum truque. Igual “Love Yourself” do Bieber com o Ed Sheeran, quando você imaginaria que uma música sem bateria, sem barulho e agudos e graves iria tocar na rádio e todo mundo curtir? Então eu vejo que a música pop continua muito rica, mas as rádios escolhem o que vão tocar.

E o que você acha que a internet influenciou no modo de trabalhar com a música?Quando eu penso nisso me vem duas coisas na cabeça: a questão de colaboração com outros artistas, é muito mais fácil colaborar com outros artistas via internet; e hoje em dia nós descobrimos muito mais músicas, é muito mais fácil. Antigamente a gente até podia ir à uma loja de CD, mas hoje a internet trouxe uma diferença enorme, você não paga. O Spotify é um exemplo, seu único gasto é o de internet.

“Future Love” vai estar no seu primeiro CD, certo? Como está o processo? Sim, e ela tem uma segunda parte. O processo está avançado, vai ter umas 14 músicas e as músicas estão todas nascendo e evoluindo. Vai ser bem complexo, vai ter várias vertentes minhas, até participações.Qual a previsão de lançamento?A ideia é lançar o disco por algum selo, alguma gravadora e ano que vem tem algumas coisas que eu estou bolando fora do Brasil. Mas a ideia é deixá-lo pronto até o final do primeiro semestre de 2017. Misturando R&B e soul – o que estou ouvindo agora.

Leo, vamos falar de sonhos? Quais são seus maiores objetivos como artista? “O meu principal objetivo é fazer um disco com significância e relevância. É ter um disco sólido, que seja um resumo da minha existência e disso chegar num ponto onde eu possa fazer turnês, tocar ao redor do mundo. Eu quero fazer algo que seja diferente e conquiste pessoas que realmente goste da minha música.

Defina o que a música representa pra você… Sensações físicas, memórias e ideias
Streaming ou CD físico? Streaming para descobrir e CD físico para escutar do começo ao fim
Um lugar no Brasil… Campo Alegre, uma cidade serrana
Um lugar em Los Angeles… La Brea Avenue esquina com a Melrose Avenue
Um ídolo… Miles Davis
Um lugar para ouvir sua música… Meu carro
Um show memorável… John Mayer na Califórnia em 2013
Um disco… “To Pimp A Butterfly” do Kendrick Lamar
Uma música… “Playa Playa” D’Angelo

As cinco faixas que fazem parte do “Relax, Leo” estão disponíveis em todas as plataformas de download, como o iTunes e Google Play, e de streaming, como o Spotify e o Apple Music. Para acompanhar o trabalho do cantor, basta curtir a página dele no Facebook e segui-lo no Instagram.

Iury Parise

Um garoto do interior morando em São Paulo. Apenas mais uma pessoa tentando se destacar no mundo! :) Me acompanha?

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